sexta-feira, 24 de abril de 2026

O Meu 25 de Abril de 1974...

Ainda me lembro, o velho rádio que estava constantemente ligado na cozinha, logo de manhã o meu avô colava-se a ele e dizia:

- Vamos lá ver se isto não dá para o torto, é preciso ter cuidado com esses filhos da mãe da pide, que estão em todo o lado, nem no vizinho nos podemos confiar. 

Ouviam-se marchas militares do MFA, interrompidas de vez em quando para actualização das notícias. 

Recomendava-se à população que se mantivesse calma e ficasse em casa, até que a situação ficasse mais definida. 

O "Alcanena" o leiteiro da terra como era conhecido, tinha chegado um pouco mais cedo. Estava mais excitado do que o costume, reclamava justiça e que matassem esses ladrões que nos roubaram tudo... 

A fábrica da resina (entenda-se a terpex) era um dos seus temas preferidos, 

foi sempre contra a sua instalação, por detrás da sua casa, e com razão reclamava, e não era o único. 

Eram quase oito e meia da manhã tinha que apanhar a "Farreca", que partia da Cova, ali mesmo em frente á loja do Francisco. 

Junto á porta da taberna na Cova, já se comentava, que o Marcelo Caetano, se tinha rendido incondicionalmente. 

A "Farreca" partiu com algum atrazo, pois o motorista, também estava na taberna a comemorar o acontecimento... 

Finalmente partimos, mais tarde ao atravessar a ponte dos arcos, olhava o rio, que vazava e rumava ao mar, parecendo também, respirar liberdade... 

Na Figueira, tive oportunidade de confirmar e presenciar a alegria das pessoas, que se juntavam em vários grupos. A notícia já estava estampada, na primeira página do jornal "O Primeiro de Janeiro", que estava exposto entre outros no quiosque na Praça Nova, vários curiosos tentavam ler as primeiras páginas dos jornais, e emitiam opiniões nem sempre concordantes. 

Cheirava a algo diferente naquele dia, havia grande alvoroço na cidade, as pessoas falavam mais e com mais alegria,preferentemente acerca de temas antes proibidos. 

Segui o meu caminho, passando em frente ao café "O Caçador", em direcção á escola Industrial e Comercial onde frequentava o quinto ano. Na parte da frente da escola todos falavam, todos já sabiam um pouco o que tinha acontecido, a minha turma também participava da euforia que se vivia, o Gil de Buarcos veio ter comigo e disse-me: 

- É João não há aulas de desenho, o Charrua, (que era o professor de desenho) disse que não tinha condições para dar aulas derivado aos acontecimentos. 

A malta da turma decidiu ir ter com o Charrua, e falar sobre o que estava acontecer, todos sabiamos que ele gostava de falar de política, mas desta vez fechou-se em copas, e disse simplesmente: 

- A Situação ainda não está esclarecida rapazes, há que aguardar pela evolução das coisas. Vagueamos todo o dia pela cidade, passando pelo mercado, até chegarmos ao "curral"(termo que utilizávamos para falar do picadeiro e mais propriamento do café Nicola, onde nos costumávamos encontrar). 

Toda a gente, em qualquer lugar da cidade falavam do mesmo, era a "Revolução dos Cravos ", o 25 de Abril tinha chegado, depois de uma ditadura tão longa e nefasta para o País, em quase todos os aspectos. 

- Viva a Revolução gritáva-se lá fora... - Viva gritávamos nós. 

No ano seguinte de escolaridade 74/75, foi introduzido pela primeira vez uma disciplina no curso que se intitulava, "Introdução à Política". 

Respiravam-se outros ares de liberdade... 

Portugal encetava uma nova era de esperança... 


Passados 52 anos, os ideais de Abril onde estão? Até aonde chegaram? Ficou quiça ainda um pouco de esperança, amarrada ao cais de partida e a mesma luta por um ideal mais real, por algo mais , talvez uma quimera...

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Outros Tempos...Seca do Bacalhau na Morraceira em 1890

 

A extinta seca do bacalhau na Morraceira, junto à antiga ponte da Figueira da Foz na margem sul do rio Mondego.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Brumas da memória...

Casario rudimentar de madeira virado para o mar...

Gente guerreira que chegou e morreu no combate pela vida.

Tantas lutas, tanto sofrimento de um passado ainda recente.
Luto negro descalço, na areia branca da praia...
Lágrimas de sal, que o mar roubou...
Brumas da memória, de quem um dia nasci.

(João M.Fidalgo Pimentel - excerto do livro"A Recoleta")

terça-feira, 10 de março de 2026

Publicações Sobre a História da Cova de Lavos (Ano 1906) - Os Palheiros...


"Na Cova de Lavos contam-se 500 destas habitações, segundo uma informação local, número este em desacordo manifesto com a população dada pelas estatísticas e da qual se destacam apenas duas centenas de homens que formam as companhas de artes de arrastar e tripulam as embarcações de pesca costeira.

Não obstante, e como em Mira, encontram-se na Cova habitações sem estacas, principalmente na região mais distante do mar e já sob o abrigo das que se dispõem em frente; mas aqui o número de palheiros que a estacaria suporta é bem maior embora não atinja, ao que parece, o número dito.
Disseminados, às vezes em arruamentos, abrangendo entanto uma área vasta, os que mais perto ficam da água, fincam-se sob pilares, que, à vista, medem três metros e até mais.
De ordinário, porém, a altura, como em Mira, oscila entre um metro e dois, e nunca atinge, como em Vieira, cinco e além. Sem excepção a forma é rectangular e o acesso faz-se por escadas que dão para uma ou duas portas do edifício. 
A cobertura, primitivamente de colmo, conforme a tradição, está toda substituída, e num ou noutro caso raro que ainda havia, realizou-se vai em pouco. Em Mira o palheiro é, uma ou outra vez, pintado exteriormente; na Cova quase todos -a vermelhão no corpo geral do prédio, a cores claras nas guarnições.
Como geralmente em todas as povoações costeiras, ter casa própria, na Cova de Lavos, é uma aspiração suprema e quase sempre realizada, ou ela seja modesta e custe vinte libras, ou vasta e folgada e vá até às cem. Depois há os reparos e a substituição frequente das estacas, e, se a prosperidade ajuda, tingem-se de cal interiormente.
Dentro o aceio, de que a bilha de água sempre coberta com um pano alvo de linho é um traço já proverbial. 
Das imediações, manifesta-se no aspecto de soalhos e paredes, na disposição dos móveis e na exclusão dos apetrechos de pesca menos limpos. Para estes destinam-se velhos barcos já inúteis, como em Buarcos; e por fim, como subsídio previdente a uma indústria de natureza essencialmente aleatória, o pescador da Cova cultiva terrenos areentos próximos que aluga ou de que se apossa e donde obtém alguns legumes, cereal, tubérculo, a vinha mesmo".
Ora o aspecto desta povoação, com o solo incessantemente revolvido, mas instalada como numa depressão, dá a imagem, talvez aproximada, de uma aldeia lacustre.

* in Rocha Peixoto, Etnografia Portuguesa, 1906*

Foto: Jorge Guerra

sexta-feira, 6 de março de 2026

Para a História da Cova Gala (VI) - No tempo do berbigão...


"Na outra margem, a "coroa da burra", começava a esperguiçar-se e expulsava os últimos lençóis de água que acareciavam seu corpo. 

Era a mãe de muita gente, já há alguns anos para cá, sobretudo na apanha do berbigão. 

Nessa madrugada dos anos sessenta, famílias inteiras atravessavam o rio de bote a remos. 

Eram às dezenas, pais e filhos com enxadas e ancinhos, e às vezes de mãos nuas à procura do "pão" espalhado na ilhota, que a baixa-mar proporcionava... 

Os de mais tenra idade, com os seus seis, talvez sete anitos, apanhavam os burriés entre o limo e a lama. 

Marisco muito apetecido, que depois se vendia na figueira, no mercado e cafés. 

À beira-rio o Manel já tinha regressado com o bote do pai carregado de sacos de berbigão. 

Foi ao armazém do Pinto, e fez rápidamente o negócio da venda como era habitual (...)."


Excerto do escrito "A Recoleta"

(João M.Fidalgo Pimentel - Fevereiro 2005)



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Figueira da Foz de outros tempos...


Figueira da Foz de outros tempos...
Praia da Claridade na baixa-mar, e o mar por ali a passear, ainda tão perto da cidade.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Praia da Cova - Sol de Inverno...

 Praia da Cova - Sol de Inverno.

Praia e ruas desertas, da terra hibernada.

Períodos de tempo, que se sucedem ordenadamente, todos os anos...

Pinhal pasmado, desmaiado de tanta inércia.

Mar revolto e predador sempre presente, mesmo num dia de sol de inverno.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Figueira da Foz Antiga - Doca de embarque, edição dos 120 anos da Casa Havanesa.

Como podereria eu, descrever, imaginar esse tempo já longínquo, nos princípios do século XX, numa visita dos nossos bisavós, depois de atravessarem a ponte a pé, vindos das areias da margem sul.
Nessa pequena viagem àquela cidade, de encanto e beleza, situada na foz do mondego.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Para a História da Cova Gala (XXXIX) - A Seca do Bacalhau na Morraceira

Outros tempos... 

A extinta "Seca do Bacalhau" da família Sotto Mayor na Morraceira, junto à antiga ponte da Figueira da Foz na margem sul do rio Mondego. 
Nos finais dos anos sessenta, princípios de setenta pude observar várias vezes, todo esse trabalho árduo, que se fazia sobretudo por mulheres do povo. 
Eram aos milhares, os bacalhaus que eram estendidos ao sol, e virados todos os dias, em numerosas e grandes bancadas apropriadas para a secagem do mesmo, e que tinha por objectivo de reitirar a água do peixe já salgado. 
Sendo este método, o mais antigo, na preservação de peixes e carnes... 
A velha ponte sobre o rio mondego, assim me obrigava, a presenciar toda esta azáfama que se vivia lá dentro na "Seca do Bacalhau", com os seus semáforos para regular o tráfego que era muito, não se podendo fazer nos dois sentidos. 
Longas esperas dentro da camioneta de transportes públicos, a Leiriense e mais tarde a Farreca. 
Era outra "seca", mas diferente. 
Quem é que não se lembra? 
A construção da nova ponte em março de 1982, veio então alterar todo este estado de coisas para melhor felizmente.

"Milhares de bacalhaus a secar... 
Tantas vidas sofridas de mar, sal ,frio e lágrimas também. 
Viagens longínquas, algumas sem regresso, deixando mulheres de negro sós, até ao fim... 
Filhos sem pai, simplesmente recordações e estórias para contar. 
Cidade, que me olhava ao longe na outra margem do rio, enquanto esperava por eles... 
Pai, avôs e irmãos, heróis desse tempo de menino." 

(João M.Fidalgo Pimentel)

Onde os bois lavram o mar

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Feliz Ano Novo de *2026*

Que a ponte da esperança para *2026*, vos faça encontrar a felicidade, que sempre procuraram.
Desejam Rosa Maria e João Fidalgo Pimentel, a todos familiares e amigos, por esse mundo fora...
Foto - Autor desconhecido

fora.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Pensamentos finais de uma tarde junto ao mar, na terra onde nasci.


Contrastes de um dia amortecido pelo outono, e o fulgor do verão dos meses de julho e agosto.
Em frente de mim, o barulho, a atrapalhação das ondas do mar, do vento e da chuva que teima em ficar...
Dezembro de tantos anos, que envelheceram alguma existência deste lugar...
Persisto em continuar olhando a sul, a velha nova "cidade da estaca" que dantes me punha a imaginar...
Passeio nas ruas e caminhos da agora "vila".
Anteontem, ainda corria pela aldeia que me fazia sonhar.
Amanhã passarei junto ao rio uma última vez, para depois partir e mais tarde, novamente recordar...

(João M.Fidalgo Pimentel)

sábado, 13 de dezembro de 2025

Para a História da Cova Gala (XXXVIII) - Era quase Natal... (Cova, Dezembro de 1964)

A estrada estava deserta, assim como o largo areal em frente, a noite fria de dezembro estava chegando depressa.
As pessoas estavam em casa reunidas em família.
Lá fora, o vento conseguia levantar alguma areia.
Areia que trazia à minha imaginação, os meus desejos Natalícios...
Havia algumas estrelas no céu e desenhos inventados por mim que as abraçavam.
Da minha janela contemplava e contava as árvores de Natal das casas em frente.
Às vezes ouvia o sino da capela ao longe...
Sonhava com o dia seguinte, e com o sapatinho cheio de brinquedos,que o "menino Jesus" me iria oferecer.
O meu pedido era um barco à vela.
Tinha reparado nele no mercado da Figueira, quando lá fui uma vez com a minha avó.
Estava numa montra, ao lado de outros grandes barcos, mas foi aquele que fizeram brilhar os meus olhos de menino.
Agora o Natal estava a chegar...
Umas semanas antes, depois da catequese do domingo, em que muita gente se confessou ao prior, eu também me confessei.
Foi ao "Cú de Borracha", como era conhecido na aldeia, e falei-lhe do barco à vela.
- O menino fala com os seus pais..., retorquiu com o seu tom de voz suave que chegava até a mim por entre os orifícios do confessório.
Na véspera de Natal minha mãe, tinha ido à mercearia do "Manel dos Caracois."
- Vou-me ali aviar num instante já venho, não saias de casa e não abras a porta a ninguém, que já é noite fechada.
Muitas vezes era a fiado...havia muitas famílias na Cova, que tinham necessidade de recorrer a este meio de venda a crédito.
O meu pai andava ao rio com o meu irmão, enquanto não partia para a Terra Nova no navio bacalhoeiro Fagundes.
Acabava de chegar a casa muito apressada, poisou o saco da loja em cima da mesa da cozinha, e disse-me para esperar na sala.
Entretanto, alguém bateu à porta.
Aproveitei a sua breve ausência...e fui espreitar no saco.
Fiquei deliciado com aquilo que vi!
Ouvi o até "amanhim" da Ti Maria, fechei o saco.
Rapidamente como um felino, voltei para onde estava antes.
- O bacalhau está caro como o fogo, tenho ali três postas, que comprei ontem, já chega para a gente !
- O teu pai e o teu irmão nunca mais chegam da Gala, já são quase sete horas.
- Pois é, disse acenando com a cabeça, disfarçando o meu nervosismo, por antes ter aberto o saco.
Entretanto o meu pai tinha chegado com o meu irmão.
Era uma noite fora do comum...
Mas eu só pensava no crepúsculo da manhã do dia seguinte, e no meu barquinho à vela que tinha pedido ao menino Jesus.
Depois de termos ceado, adormeci com os meus sonhos de criança de seis anos.
De manhãzinha cedo acordei.
Ainda todos dormiam e eu corri para o borralho onde estava o sapatinho.
Fiquei estupefacto com o que vi!
Bombons de chocolate envoltos em papel de prata de várias cores, aqueles que estavam no saco da loja!
O barquinho à vela não tinha navegado até junto a mim...
Percebi quem era o menino Jesus.
Apanhei alguns bombons.
O resto meti num tamanco velho da minha mãe em cima do borralho.
Nesse Natal tinha sido eu o menino Jesus.
Pus-me à janela, a comer bombons e a ver a areia que levantava, voava com o vento, e imaginava, o meu barquinho que chegava e partia com ela...

(João M.Fidalgo Pimentel - em "Memórias da minha infãncia")

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Pensamentos no entardecer...

 

Bateira deste povo, e do meu entardecer, rio silencioso da baixa-mar.
Águas quietas do meu fantasma, que me faz aparecer...
Na ilha de areia que renasce todos dias.
Influxo, que não tardará a chegar, afundando serenamente alguns pensamentos nas águas do rio.
Aragem tardia, que trouxe outros, e gaivotas também.

O Mar...da Cova.

O Mar...da Cova.
Praia da cova...teu mar é imenso,tem muitas estórias para contar.Quando era criança quis alcançar o teu fim...nos meus pensamentos.O teu horizonte era a minha amante longínqua...As dunas a cama aonde um dia me iria deitar contigo...

Que dia é hoje?

Só existem dois dias no ano,em que nada se deve fazer.
Um chama-se ontem,e o outro amanhã.
Por isso hoje é o dia para amar,crer,fazer e principalmente viver...

Ponte dos Arcos...na Gala

Ponte dos Arcos...na Gala
Velha Ponte dos Arcos...Ponte da minha infãncia.Tua vida chegou ao fim...mas a tua imagem ficará sempre em mim.Olhas o rio,como quem olha o espelho da vida.Já viste alguém nascer...quem sabe!Não evitas-te que junto a ti alguém morresse.

Praia da Cova...

Praia da Cova...
O perfume do teu mar...é o presente,foi o passado e será o futuro da minha existência...