domingo, 9 de março de 2008

Uma Estória Antiga...



Naquele dia de outono,o vento soprava mais forte.
A chuva de início caía timidamente.
No entanto as nuvens negras,incitavam e ameaçavam...
O mar vomitava e rugia o seu furor,com espuma de cor amarela.
As dunas contemplavam indefesas...
Mais atrás o pinhal curvava-se,perante tal situação,em cima da barreira natural das dunas,que chegava a atingir cinco metros de altura...
O menino olhava a praia e o imenso oceano sem fim...
O vento desafiava-o,com chapadas de areia que os canaviais não conseguiam conter.
Sentia algum frio,mas o velho sobretudo que tinha vestido do irmão mais velho,vinha mesmo a calhar.
Quase lhe chegava aos pés,já se sentia um homenzinho,com os seus quase oito anos.
Na cabeça usava um barrete verde e branco,enfiado até ás orelhas.
A bolinha amarela do barrete,girava ao sabor do vento...e o menino só olhava o mar.
Imaginava ao longe um bacalhoeiro na terra nova,onde se encontrava o pai e o "mano".
Tinha muitas saudades do irmão,foi a primeira vez que se separaram por tanto tempo.
As brincadeiras que faziam juntos e as birras que tinham,de tudo isso sentia falta.
Agora em casa,só estava a mãe e o "piloto",o cão preto de estatura média e focinho branco.
O "piloto"era muito amigo da família,sempre atento,ao mais pequeno ruído.
As suas grandes orelhas,punham-no logo em posição de combate.
De vez em quando,era um pandemónio lá no pátio da casa,numa guerra sem tréguas com a "céguêta" e o "gordinho",os gatos que tinhamos.
O "gordinho" é que provocava toda esta situação,como o nome indicava,era uma bola de gordura.
Então sorrateiramente punham-se a roubar o manjar do "piloto".
Era pernas para que te quero,os felinos a subirem a vedação em madeira do pátio,e daí treparem para o telhado da casa.
O cão continuava durante mais algum tempo a ladrar...depois repreendido pelo excesso de barulho que fazia,retornava à casota,e adormecia com o focinho por cima do osso.
Vivíamos perto da praia,numa casa de madeira.
Adorava o "sobrado" onde dormia,da minha janela pequena conseguia ver o mar e as gaivotas que faziam desenhos no céu.
O vento também era um dos meus companheiros preferidos,enquanto dormia.
Algumas redes,que o meu pai tinha pendurado,por vezes bailavam e as telhas assobiavam por cima dos barrotes.
A velha lanterna a petróleo,apagava-se constantemente.
A cozinha era a maior divisão da casa.
Fascinava-me o borralho onde todos se aqueciam,enquanto se preparava o jantar,quase sempre peixe.
A grande travessa em barro,em que comiamos e os serões que se faziam depois,junto ao calor do borralho.
As conversas dos meus pais,que nem sempre compreendia.
O acordar no dia seguinte,em que a chuva não parava de cair...
Estávamos no final dos anos cinquenta,eram tempos difíceis.
Na cova,como noutras pequenas povoações junto á beira-mar,que viviam sobretudo de actividades piscatórias,a coragem era do tamanho do mundo...para se poder sobreviver.
No entanto já se notavam algumas melhorias,em relação à dez anos atrás,quando terminou a segunda guerra mundial.
As pessoas falavam,que um dia a camionete da"leiriense"iria passar pela cova.-Era só fazer a estrada da gala até à cova,e já estava dizia o meu avô .
Enquanto,acendia mais um cigarro.
Eram este e outros pensamentos,que o menino João passeava no seu imaginário,naquele momento...era tão bom andar de camioneta,já tinha ido duas vezes à Figueira com a mãe.
Entretanto a chuva tinha parado.
Olhou em redor,não havia ninguém.
Descalçou os velhos tamancos pretos e as meias "algarvias"e desceu a barreira.
O contacto dos pés com a areia fria e molhada,não era muito aconselhavel,mas a sensação de fazer algo proíbido,despertava o apetite.
O "mano" tinha feito isso com ele,o ano passado quando fez quinze anos.
Hoje era o dia do seu aniversário,mas ele estava longe...
Tinha-lhe deixado o velho pião...como lembrança,que guardadva sempre no bolso.
Depois de uma caminhada de cerca de duzentos metros para sul...não resistiu,tirou o sobretudo,e mergulhou nas águas salgadas e frias do mar...
E depois gritou bem alto:Feliz aniversário meu querido irmão...






(em "memórias da minha infãncia" )

5 comentários:

  1. Velha Guarda Anos 60/70...21 de março de 2008 às 18:02

    É bom ver que alguém se interessa,por escrever coisas sobre a nossa terra.

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  2. Também eu gostei,é pena não haver ainda mais detalhes da vida,naquele tempo,é bom ás vezes reviver o passado que nos pertence.

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  3. Amigo gostei muito a gente sabe dar valor a essas coisa
    temos longe mas nao esquecemos

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  4. Estória magnifica!
    Intensa, linda...
    bgda por ela
    Uma florita pra si

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  5. Seria um desperdício não prolongar esta estória,tão linda.
    Aqui fica a minha sugestão ao autor.
    Saudações da Praia da Leirosa.

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O Mar...da Cova.

O Mar...da Cova.
Praia da cova...teu mar é imenso,tem muitas estórias para contar.Quando era criança quis alcançar o teu fim...nos meus pensamentos.O teu horizonte era a minha amante longínqua...As dunas a cama aonde um dia me iria deitar contigo...

Que dia é hoje?

Só existem dois dias no ano,em que nada se deve fazer.
Um chama-se ontem,e o outro amanhã.
Por isso hoje é o dia para amar,crer,fazer e principalmente viver...

Ponte dos Arcos...na Gala

Ponte dos Arcos...na Gala
Velha Ponte dos Arcos...Ponte da minha infãncia.Tua vida chegou ao fim...mas a tua imagem ficará sempre em mim.Olhas o rio,como quem olha o espelho da vida.Já viste alguém nascer...quem sabe!Não evitas-te que junto a ti alguém morresse.

Praia da Cova...

Praia da Cova...
O perfume do teu mar...é o presente,foi o passado e será o futuro da minha existência...