sábado, 19 de dezembro de 2015

Era quase Natal... (Cova, Dezembro de 1963)


A estrada estava deserta, assim como o largo areal em frente, a noite fria de dezembro estava chegando depressa.
As pessoas estavam em casa reunidas em família.
Lá fora,o vento conseguia levantar alguma areia.
Areia que trazia à minha imaginação os meus desejos Natalícios...
Havia algumas estrelas no céu e desenhos inventados por mim que as abraçavam.
Da minha janela contemplava e contava as árvores de Natal das casas em frente.
Às vezes ouvia o sino da capela ao longe...
Sonhava com o dia seguinte,e com o sapatinho cheio de brinquedos,que o "menino Jesus" me iria oferecer.
O meu pedido era um barco à vela.
Tinha reparado nele no mercado da Figueira,quando lá fui uma vez com a minha avó.
Estava numa montra,ao lado de outros grandes barcos,mas foi aquele que fizeram brilhar os meus olhos de menino.
Agora o Natal estava a chegar...
Umas semanas antes,depois da catequese do Domingo,em que muita gente se confessou ao prior,eu também me confessei.
Ao "Cú de Borracha",como era conhecido na aldeia,e falei-lhe do barco à vela.
- O menino fala com os seus pais,...retorquiu com o seu tom de voz suave que chegava até a mim por entre os orifícios do confessório.
Na véspera de Natal minha mãe,tinha ido à mercearia do "Manel dos Caracois."
-Vou-me ali aviar num instante já venho,não saias de casa e não abras a porta a ninguém,que já é noite fechada.
Muitas vezes era a fiado...havia muitas famílias na Cova,que tinham necessidade de recorrer a este meio de venda a crédito.
O meu pai andava ao rio com o meu irmão,enquanto não partia para a Terra Nova no Fagundes.
Acabava de chegar a casa muito apressada,poisou o saco da loja em cima da mesa da cozinha,e disse-me para esperar na sala.
Entretanto,alguém bateu à porta.
Aproveitei a sua breve ausência...e fui espreitar no saco.
Fiquei deliciado com aquilo que vi!
Ouvi o até "amanhim" da Ti Maria...fechei o saco.
Rápidamente como um felino,voltei para onde estava antes.
-O bacalhau está caro como o fogo,tenho ali três postas,que comprei ontem,já chega para a gente !
-O teu pai e o teu irmão nunca mais chegam da Gala...já são quase sete horas.
-Pois é,disse acenando com a cabeça,disfarçando o meu nervosismo,por antes ter aberto o saco.
Entretanto o meu pai tinha chegado com o meu irmão.
Era uma noite fora do comum...
Mas eu só pensava no crepúsculo da manhã do dia seguinte...e no meu barquinho à vela que tinha pedido ao menino Jesus.
Depois de termos ceado...adormeci com os meus sonhos de criança de seis anos.
De manhãzinha cedo acordei...
Ainda todos dormiam e eu corri para o borralho onde estava o sapatinho.
Fiquei estupefacto com o que vi!
Bombons de chocolate envoltos em papel de prata de várias cores...aqueles que estavam no saco da loja!
O barquinho à vela não tinha navegado até junto a mim...
Percebi quem era o menino Jesus...
Apanhei alguns bombons.
O resto meti num tamanco velho da minha mãe em cima do borralho...
Nesse Natal tinha sido eu o menino Jesus...
Pus-me à janela,a comer bombons e a ver a areia que levantava, e voava com o vento...e imaginava, o meu barquinho que chegava e partia com ela.


(em "Memórias da minha infãncia)

O Mar...da Cova.

O Mar...da Cova.
Praia da cova...teu mar é imenso,tem muitas estórias para contar.Quando era criança quis alcançar o teu fim...nos meus pensamentos.O teu horizonte era a minha amante longínqua...As dunas a cama aonde um dia me iria deitar contigo...

Que dia é hoje?

Só existem dois dias no ano,em que nada se deve fazer.
Um chama-se ontem,e o outro amanhã.
Por isso hoje é o dia para amar,crer,fazer e principalmente viver...

Ponte dos Arcos...na Gala

Ponte dos Arcos...na Gala
Velha Ponte dos Arcos...Ponte da minha infãncia.Tua vida chegou ao fim...mas a tua imagem ficará sempre em mim.Olhas o rio,como quem olha o espelho da vida.Já viste alguém nascer...quem sabe!Não evitas-te que junto a ti alguém morresse.

Praia da Cova...

Praia da Cova...
O perfume do teu mar...é o presente,foi o passado e será o futuro da minha existência...