sexta-feira, 16 de março de 2018

"A Recoleta" (continuação)


O Manel sabia de tudo isso, mas a Rosa não lhe saía da cabeça.
Ela era a moça mais linda da terra, olhos de mel castanhos, lábios como as pétulas de uma flor semi-aberta.
E o seu sorriso...como quem já não quer, mas sempre espera, era misterioso, algo inocente. faces rosadas, cabelo de trigo solto, liso, por vezes agarrado atrás com um travessão.
Então o seu andar de menina mulher, com aquele corpo tão atraente...deixavam-no louco.
Quando ela vinha à gala com a mãe ajudar o pai na borda do rio, o Manel com um sorriso tímido, disfarçado e olhar profundo, mostrava-lhe o quanto a amava...
Ela retorquia da mesma forma.
Era um momento mágico de segundos, em que o tempo parecia ter parado para ambos...até que uma varina passou, e o encanto quebrou.
A "recoleta" do pai da Rosa ficava mesmo ao lado da sua.
Às vezes passava horas sentado junto à porta, com a chave na mão ,na esperança de ver a sua amada.
Era com ela que um dia queria casar...
Com o olhar fixado nos degraus, conseguia ver um filme, onde ela era a principal protagonista.
Eram cenas de uma paixão ardente, sem regras de dois corpos desejosos de amor...fantasias de um amor proíbido de dois jovens adolescentes.
Os seus pensamentos foram roubados por vários foguetes, que anunciavam a festa em honra de S.Pedro, que se realizava nesse fim de semana.
Entrava novamente na "recoleta" do pai, que já fora do avô em tempos mais distantes...
Havia muitas redes penduradas de vários aparelhos, para a pesca da lampreia, sável, assim como algumas peneiras, quando era a época da pesca do meixão.
Algumas varas, estavam penduradas no tecto já há muito tempo.
A um canto alguns remos, com as "forquetas" amarradas, velhos paneiros do bote e da bateira, que o pai possuía.
Ao fundo, com um pouco mais de um metro de altura, uma cama improvisada, com um velho colchão de palha, onde ás vezes o pai descansava os ossos.
Ao lado da cama, por cima de uma caixa do peixe, a pequena máquina de petróleo para fazer o café de cevada.
Ao lado uma grande cafeteira, que poucas vezes era lavada
Era preciso dar á bombinha, mas nem sempre acendia, o bico por vezes entupia e o velho fartava-se de resmungar...-"que raio de máquina é esta, que tua mãe comprou rapaz ?"
Penduradas também quatro lanternas, mas só duas é que funcionavam, mas o Ti João não se queria desfazer delas, já eram do tempo do seu pai.
Uma velha âncora, por cima das redes, que estavam no chão parecia guardar, todo esse encanto...
De vez em quando ouviam-se novamente os foguetes.
Os enfeites da capela já estavam terminados, cá fora os arcos alinhados uns atrás dos outros no extenso areal branco, que havia em frente da capela.
Ramadas de diferentes árvores serviam de decoração para os mesmos, além de outros objectos relacionados com a vida do mar, do povo da Cova Gala.
Relíquias, como cabaças, rodas de cortiça, esferas de vidro vestidas de rede, boias de salvação de diferentes cores.
A magia da noite, dava uma dimensão superior, quando se acendia a iluminação. A barraca das farturas já estava em funcionamento, assim como a das bebidas e outras menos relevantes de última hora.
Nos dias de festa, além da procissão no domingo à tarde, o fogo de artíficio, era um dos momentos cruciais para todos, sobretudo para juventude da terra.
Nessa noite apagavam-se todas luzes...para se poder desfrutar do "fogo preso."
As pessoas movimentavam-se pelo pinhal, situado no lado esquerdo perto da capela, à procura de um sítio, para melhor presenciar o espectáculo.
Os jovens com a sua irreverência, em grupos, atiravam gritos de insaciedade.
Tinham mais liberdade, naquela noite especial...
Os altifalantes posicionados em pontos estratégicos, espalhavam música para todos os gostos.Muitos dançavam, bebiam de alegria ,outros limitavam-se a olhar ou censurar, foi sempre assim na Cova Gala.
Foi sempre uma festa desejada por todos onde muitos ficavam quase até ao amanhecer...
Ao longe entre a multidão, o Manel espreitava, procurando a sua paixão.
Ela, como um farol, com os seus olhos brilhantes, procurava o seu navio, no imenso mar da noite.
Estava com mais duas amigas, e o primo mais novo, que tinha a tarefa de a guardar...a mãe tinha-lhe dito que ficasse sempre junto ao carlitos.
Já estava impaciente, o nariz perfeito que tinha, torcia-se de nervosismo.
Por momentos olhava a capela toda iluminada, e via o São Pedrinho lá em cima à janela, e perguntava-lhe em pensamentos, aonde estava o Manel.
Súbitamente viu o que procurava, seus olhares encontraram-se...e ele deixou o seu no dela, e depois inexplicavelmente desapareceu.
Passados alguns momentos, sentiu uma mão acariciar a sua e o odor inconfundivel do seu corpo.
Seguiu-o sem se despedir de ninguém.
Depois já de mão dada, abraçaram-se e beijaram-se profundamente...a meio caminho do destino.
Depressa chegaram à margem do rio.
Em frente, estava a velha "recoleta", envergonhados, olharam os dois para o chão, depois ganharam coragem e decidiram entrar.
Fecharam a porta e abraçaram-se apaixonadamente...
A velha cama, estava mesmo ali ao lado...
Lá fora, havia muitos foguetes no céu, o fogo de artíficio estava no seu auge, toda a povoação usufruía alegremente da festa.
Junto ao rio dois adolescentes, na velha recoleta, experimentavam o prazer e a felicidade do primeiro amor...
Dois corpos nus, como um só, sobre o colchão de palha, indiferentes a tudo amaram-se até ao amanhecer...
A palha espalhada pelo chão antigo, tinha sido a vítima e prova desse grande amor.
Colada aqui e além, nos seus corpos transpirados, naquela noite escaldante...
A Cova estava em alvorôço, a Rosa ainda não tinha aparecido, e o carlitos não sabia explicar aonde estava a prima.
Mas isso já era outra estória...
Os primeiros raios de sol, já entravam pelas fendas das tábuas da velha "recoleta", deixando ver tímidamente, o que ali tinha acontecido...
O batel, vindo das salinas do sul, passou mesmo em frente, como sempre áquela hora.
Lentamente, desaparecia por debaixo da ponte dos arcos, encoberta parcialmente pela neblina da madrugada.
Ao longe, o sol espreitava o rio, e dava luz a um novo dia...

(João Catavento)

Foto - Pedro Cruz

O Mar...da Cova.

O Mar...da Cova.
Praia da cova...teu mar é imenso,tem muitas estórias para contar.Quando era criança quis alcançar o teu fim...nos meus pensamentos.O teu horizonte era a minha amante longínqua...As dunas a cama aonde um dia me iria deitar contigo...

Que dia é hoje?

Só existem dois dias no ano,em que nada se deve fazer.
Um chama-se ontem,e o outro amanhã.
Por isso hoje é o dia para amar,crer,fazer e principalmente viver...

Ponte dos Arcos...na Gala

Ponte dos Arcos...na Gala
Velha Ponte dos Arcos...Ponte da minha infãncia.Tua vida chegou ao fim...mas a tua imagem ficará sempre em mim.Olhas o rio,como quem olha o espelho da vida.Já viste alguém nascer...quem sabe!Não evitas-te que junto a ti alguém morresse.

Praia da Cova...

Praia da Cova...
O perfume do teu mar...é o presente,foi o passado e será o futuro da minha existência...